O que é metodologia científica

Resenha elaborada por: Rita C. Freire

CARVALHO, Alex et al. Aprendendo Metodologia Científica. São Paulo: O Nome da Rosa, 2000, pp. 11-69.

Considerações para os primeiros fundamentos estabelecidos
para o conhecimento científico

A ciência moderna vai se constituindo ao longo da modernidade e, de certa forma, até hoje, como um campo seguro, provedor de certezas e de formas específicas de se estabelecer no mundo, provendo sentidos para a existência. Sua natureza é essencialmente histórica, tendo na volorização do eu autônomo e na liberdade individual um correlato da valorização burguesa do indivíduo, invenção da modernidade e do modo de produção capitalista.
A observação e a experimentação, como procedimentos de pesquisa, não são desprovidas desses recortes que, se, de um lado, revolucionam a forma de produzir conhecimento, de outro trazem as marcas de um novo tempo que vai tentar fazer da ciência sua aliada na construção de uma nova e supostamente definitiva ordem social.
As ciências humanas surgem no contexto de briga entre o que se pretende como objetividade, nos moldas das ciências chamadas exatas, e o que se denomina conhecimento histórico, o qual, de várias maneiras vai se configurando como objeto próprio de seu estudo

O ILUMINISMO E A QUESTÃO DO CONHECIMENTO

O século XVIII apresenta-se como o século da claridade, da iluminação, que se coloca no plano da experiência humana, aprofundando a crença na razão humana como possibilitadora do conhecimento e de todas as formas de relação humana na terra. Razão equivale à luz.
A razão deve se posicionar como critério a partir do qual o homem deve construir seu destino: o eu se afirma como ponto de partida racional da batalha contra as trevas (ignorância), se posicionando como evidência autofundante de certezas e garantindo, assim, a produção do conhecimento.
O Iluminismo vai além dos racionalismos e empirismos do século XVII no sentido de prescindir cada vez mais de uma mediação divina e, assim, apontar não só as possibilidades da razão como seus limites.
O empirismo radical de D. Hume e suas conseqüências no campo da
Fundamentação do conhecimento científico

Para Hume, o fundamento do conhecimento não se encontra em alguma mediação divina, mas no próprio homem. Defende o critério da experiência sensível como condição de garantia de, pelo menos, alguma correção do conhecimento produzido pela ciência.
Para ele, nada se pode afirmar da realidade em si mesma, em termos de permanência absoluta de um fenômeno. O ceticismo de Hume busca fundamentar o conhecimento produzido pela ciência no campo das condições psicológicas do sujeito humano. É na idéia de hábito ou costume que busca explicar o modo de funcionamento da noção de causalidade, central na ciência humana. O seu trabalho é, pois, fundamentar, no campo psicológico, os mecanismos pelos quais: (1) chega-se à noção de causa e (2) espera-se que, no futuro, o passado se repita. O hábito e a crença aparecem como tais mecanismos.
Tudo o que se pode fazer é assumir o caráter bastante humano deste tipo de conhecimento, esperando ou contando com a repetição de eventos no futuro, com um grau um pouco maior de certeza dado pelos cálculos – cujos resultados podem se modificar – de probabilidades.

As possibilidades e os limites da razão. I.Kant

Kant pretende superar a dicotomia racionalismo-empirismo, ou seja, vai buscar resolver o processo de produção de conhecimento, considerando a ciência de sua época. A questão do conhecimento é a razão humana, liberta de tudo o que é exterior a si mesma. Kant considera que a ciência produz um conhecimento universal e correto. Sendo universal, ultrapassa o plano da pura experiência sensível e contingente. É a razão humana, nas suas possibilidades e limites, que garante a produção de verdade universais pela ciência.
Para Kant, nossa razão filtra a realidade no sentido de que só temos acesso ao que ela permite. O tempo e o espaço, assim como a substância e causalidade, são categorias a priori a partir das quais situamos nossa própria experiência. As primeiras são categorias da sensibilidade humana; as demais do entendimento. Ambas constituem as formas a priori do conhecimento, ou seja, as fôrmas (ou os filtros) que possuímos na razão e que possibilitam, mas também limitam (nosso conhecimento se atém aos fenômenos) a ciência.
A organização das impressões captadas pelos sentidos é dada pelas categorias a priori, o que garante a universalidade do conhecimento produzido. Por ser universal, tal estrutura é tida por Kant como transcendental, isto é, independente da experiência particular de cada ser humano, sendo própria de todos os homens. Transcendental, para Kant, é aquilo que demarca a experiência racional humana.
A questão do conhecimento, se apresenta como uma formulação radicalmente moderna, no sentido histórico, uma vez que atrelada à idéia de racionalidade como luz, como fundamento do conhecer. A idéia comanda a produção de conhecimento, filtra as informações dadas pelos sentidos e, assim, tem primazia sobre a própria impressão.

A razão é histórica: G.H. Hegel

A Revolução Francesa, com seus ideais de igualdade, liberdade e fraternidade, com sua ênfase na razão humana e no desprezo pela ignorância, constituiu, para Hegel, o contexto histórico a partir do qual sua filosofia foi sendo elaborada. Par Hegel, todo esse movimento se deu no espaço da luta, da guerra, da contradição, do embate entre opostos. Hegel apresenta uma filosofia da história, buscando compreender racionalmente o movimento dos acontecimentos humanos.
O contraditório também se aplica aos fenômenos da natureza e busca estabelecer uma relação entre a estrutura da razão e o modo de funcionamento da natureza. A razão humana se desdobra sobre si mesma para se tomar com puro movimento, como articulação de uma imanência: o mundo humano ou não, é, em si mesmo, movimento e movimento a partir da contradição.
Não é possível pensar um artista sem sua obra, sem um suporte material no qual ele se realize como tal. Do mesmo modo, o pedaço de madeira, por exemplo, tal qual está sendo no primeiro momento, impõe resistência ao artista. Não se pode fazer qualquer coisa com a madeira, e, mais importante, ela impõe uma luta pela qual resiste e se entrega, morre e renasce, e vem a ser outra coisa a partir de sua interpenetração com o seu contrário, isto é, o artista. Tensão, luta de contrários: não é necessário se submeter à matéria para dominá-la?
A história humana, pode e deve ser analisada do ponto de vista do conflito entre idéias que foram sendo forjadas e transformadas em vista das contradições postas por elas mesmas. Na medida em que concebe o movimento da história e da natureza com o movimento da idéia, Hegel se apresenta como idealista.

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