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O que é metodologia científica?

Resenha elaborada por: Rita C. Freire

CARVALHO, Alex et al. Aprendendo Metodologia Científica. São Paulo: O Nome da Rosa, 2000, pp. 11-69.

TENDÊNCIAS METODOLÓGICAS NO SÉCULO XX

As tensões e conflitos relacionados ao desenvolvimento e expansão do modo de produção capitalista, verificados já no final do século XIX, ampliam-se e ganham novos contornos no início do século seguinte: as duas Guerras Mundiais e as experiências políticas totalitárias delas decorrentes – o fascismo e o nazismo; a Revolução Socialista na Rússia; a quebra da Bolsa de Nova York. Esses acontecimentos podem ser tomados como índices da falência ética e política das sociedades ocidentais. Surge uma nova onda de ceticismo e irracionalismo, assim como um descrédito com relação à possibilidade de convivência pacífica entre os homens e de superação das particularidade (diferenças individuais, grupais, étnicas, nacionais, etc.).
Nesse contexto, surgem propostas para a produção do conhecimento científico ainda atreladas ao ideal de objetividade: trata-se justamente de salvar a civilização ocidental do caos pelo resgate da razão. Nesse sentido, o projeto iluminista vai reaparecer em tendências metodológicas, tais como o empirismo lógico e a fenomenologia, no século XX. Ao mesmo tempo, sugem outras tendências metodológicas que discutem, entre outras coisas, a neutralidade da ciência, isto é, se é possível a independência do sujeito com relação ao objeto do conhecimento. Se o conhecimento não é neutro, então a questão da produção do conhecimento científico não é só cognitiva mas também ética e política.

A continuidade do projeto epistemológico da modernidade: novas tendências

Três tendências metodológicas buscam manter e aprofundar os fundamentos teóricos estabelecidos já quando do nascimento da ciência moderna.

Neopositivismo

Os principais representantes do neopositivismo, também chamado de empirismo lógico, reuniram-se no grupo conhecido como Círculo de Viena e tem um objetivo em comum: a luta contra o pensamento metafísico, não só na ciência como em todas as esferas do comportamento humano. A concepção de ciência implica uma produção de conhecimento atrelada a uma transformação racional da ordem social. Para os neopositivistas, a linguagem da ciência é capaz de exprimir universalmente o que a experiência nos oferece, pois o conhecimento produzido pela razão pura, independente da experiência empírica, não é legítimo.

Fenomenologia

A fenomenologia se opõe à separação entre o sujeito produtor de conhecimento e o objeto. Afirma que o conhecimento é resultado da interação entre o que o sujeito observa e o sentido que ele fornece à coisa percebida: toda consciência é intencional.
A fenomenologia não admite que existam fatos que por si só garantem a objetividade da ciência. Os fatos se constituem a partir dos sentidos conferidos a eles pela consciência e se referem, de fato, à realidade dos objetos, o que eles são. No entanto, alcançar essas essências requer um método (fenomenológico). O processo de transformação de objetos individuais contingentes em fenômeno é fruto de um esforço de redução, quer dizer, reduzimos nossa experiência de um objeto e, ao assim fazermos, alcançamos o que é permanente naquele objeto, em sua natureza última. Por esse motivo, a fenomenologia ainda é considerada como parte do projeto moderno de fundamentação da ciência, apesar de seu esforço de superação da separação entre sujeito e objeto.

Estruturalismo

Por volta da metade do século XX, surge outra tendência metodológica, relacionada sobretudo às ciências humanas: o estruturalismo. De uma maneira geral, o método estruturalista pretende alcançar leis universais que expliquem o modo de funcionamento dos fenômenos humanos. São as estruturas que, de forma inconsciente, controlam o comportamento humano. O ideal de cientificidade para as ciências humanas é alcançado, uma vez que, ao desvendar as estruturas, esta-se enunciando leis gerais sobre o modo de funcionamento das sociedades humanas.

Rupturas com o projeto epistemológico da modernidade

No século XX assistimos também ao surgimento de tendências que marcam uma ruptura com o projeto moderno de fundamentação da ciência. É bem verdade que críticas a este projeto nunca deixaram de existir. No entanto, a valorização da permanência ou da regularidade dos fenômenos, assim como a separação entre sujeito e objeto, foram dois dos aspectos que predominaram, chegando a influenciar tendências elaboradas no século XX.
A superação do projeto moderno de ciência, no que se refere à permanência e regularidade dos fenômenos e à separação entre sujeito e objeto, ganha força não só pela reflexão sobre um novo estatuto epistemológico da ciência, com também por causa dos avanços das descobertas científicas que permeiam as várias áreas das ciências que vão sendo desbravadas na passagem dos séculos XIX para o XX.

Rupturas com o projeto epistemológico da modernidade

O debate em torno do desenvolvimento da ciência ganha novos contornos ao se concentrar no seu aspecto interno, não levando muito em conta as influências externas a esse desenvolvimento, como os movimentos sociais, culturais, políticos e econômicos.

Pragmatismo

O pragmatismo é outra tendência metodológica surgida ao longo do século XX. É uma concepção que não compartilha o pressuposto de que as verdades científicas correspondem a uma realidade independente do sujeito. As contingências histórico-culturais determinam as descrições da realidade que são feitas pelos cientistas. Este é o critério de verdade pragmatista: que a descrição feita permita retirar da realidade conseqüências práticas.
Uma vez que o conhecimento científico é uma atividade humana, essa dimensão – a humana – torna-se o critério básico com o qual o pragmatismo analisa o alcance das formulações do conhecimento científico.

Construcionismo

Surgida também no século XX, a tendência construcionista se apresenta com o papel estruturados operado pela linguagem, considerando que tanto o sujeito como o objeto do conhecimento são construções sociais e históricas. Ou seja, a maneira pela qual o sujeito percebe a realidade é datada, posto que determinada por suas condições sociais e históricas de existência. Da mesma forma o é o objeto que ele, sujeito, se propõe a pesquisar.
Nesta perspectiva, na medida em que tanto sujeito como objeto do conhecimento se constituem como crenças ou convenções sociais, resta, como parte do processo de pesquisa, o caminho da desconstrução, da discussão e do combate destas mesmas crenças, sobretudo quando elas se apresentam como forma de dominação.
A implicação ética dessa tendência é a de que as verdades existem como convenções que podem e devem ser discutidas em função do próprio homem, ou melhor, de suas relações sociais e históricas.
O construcionismo, ao estabelecer que tanto o sujeito como o objeto são construções sociais que devem estar o tempo todo se desconstruindo, leva a perspectiva interacionista de análise de produção do conhecimento até as últimas conseqüências.

RETOMANDO O ROTEIRO DE VIAGEM…

A viagem esteve dirigida por duas questões. A primeira analisou os diferentes modos como a relação sujeito-objeto é considerada nas diversas perspectivas metodológicas ou epistemológicas. A segunda tratou da forma como a realidade foi, por essas diversas tendências, concebida.
O papel do sujeito na produção do conhecimento se modifica de tal forma que de purificado e neutro – uma vez que só assim seria capaz de refletir a natureza – passa a ser concebido como historicamente determinado. O universalismo (a pretensão da descoberta de leis gerais e eternas), apoiado por uma base metafísica (que garantiria as verdades da ciência), vai cedendo lugar ao caráter parcial, contingente e precários do produtor da ciência: o sujeito humano. No século XX, os avanços e recuos da tendência histórica com relação ao modelo da tendência histórica com relação ao modelo universalista são visíveis.
A ciência é parte do mundo moderno e é determinada pelas condições históricas das quais faz parte. Não por acaso o produtor do conhecimento é tomado como um sujeito racional e livre, capaz de, por si só, elaborar pressupostos para a ciência, inclusive os metafísicos. Tal sujeito, com a sua pretensão de autonomia, é uma das maiores invenções da modernidade, contexto no qual surge a ciência. Por sua vez, o conhecimento científico e seus produtos determinam mudanças na vida social de forma tal que, atrelados a determinações socioeconômicas, passam a constituir novas formas de vida e de relações entre os homens.
A crítica ao universalismo também implicou o aprendizado de outra perspectiva de realidade: o da sua transformação. Se, por um lado, a onipotência do homem (que tudo quer conhecer) ficou abalada, por outro, suas possibilidades de aprendizado do mundo se ampliaram na medida em que o mistério e a novidade estão sempre a bater na sua porta. Em síntese: a realidade não se submete aos esquemas conceituais que o homem inventa para compreendê-la. O que significa que a aventura de produção da ciência continua. A cada decisão de caráter metodológico que o pesquisador tomar, questões de epistemologia emergirão e, se for necessário, uma volta à discussão será útil.

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Resenha elaborada por: Rita C. Freire

CARVALHO, Alex et al. Aprendendo Metodologia Científica. São Paulo: O Nome da Rosa, 2000, pp. 11-69.

A EMERGÊNCIA DAS CIÊNCIAS HUMANAS:
A CONSTRUÇÃO DE NOVAS TENDÊNCIAS METODOLÓGICAS
NO CONTEXTO HISTÓRICO DO SÉCULO XIX

O século XIX se apresenta com algumas características peculiares, a primeira delas se referindo à continuidade das transformações engendradas pelas duas grandes revoluções: uma de cunho mais econômico – a chamada Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra – e a Revolução Francesa, de natureza política, ambas na segunda metade do século XVIII.
As ciências humanas surgem como tentativa de compreensão das crises que então se instalam. Duas tendências metodológicas marcam e configuram a construção de novos objetos de conhecimento: o positivismo e o materialismo histórico-dialético.

O positivismo

O positivismo, fundado por A. Comte, está relacionado com o aparecimento da sociologia. O método proposto pelo positivismo para as ciências sociais deveria ser o das ciências da natureza:
1. Observação neutra, objetiva, desligada dos fenômenos, o que implica uma separação entre o sujeito produtor de conhecimento e seu objeto de estudo;
2. Valorização exclusiva do fato, tomado como aquilo que pode ser conhecido somente através da observação e da experiência.
3. Segmentação da realidade, ou seja, a compreensão da totalidade se dá pela compreensão das partes que a compõem.

A rigidez com que Comte concebe tanto o sistema social quanto o da natureza impede a compreensão da realidade como processo. Um exemplo disso é a sua dificuldade em aceitar a teoria da evolução de Darwin, uma vez que esta impede classificações fixas dos seres vivos.

O materialismo-dialético

O materialismo-dialético concebido por K. Marx constitui outra tendência metodológica que configura uma forma de conceber a realidade social. Os seus fundamentos são:
1. A base da sociedade e do próprio homem é o trabalho. As idéias devem ser analisadas a partir da compreensão do modo de produção (economia) que caracteriza um momento histórico de uma sociedade, o que não implica que as idéias estejam sempre em consonância com a ordem vigente.
2. O homem se faz historicamente, em condições determinadas, passa a ser determinado e determinante da/pela natureza e por outros homens, à medida que transforma a natureza para satisfazer suas necessidades básicas e, nesse processo, cria novas necessidades que se transformam também.
3. O conhecimento científico é uma ferramenta de compreensão e de transformação da sociedade humana, o que implica a ausência de neutralidade da ciência, uma vez que se estará analisando sempre uma formação histórica de um determinado ponto de vista: a classe explorada.
4. O conhecimento a-histórico se apresenta como aparência, uma vez que não revela suas condições históricas de produção. Uma análise histórica e dialética, portanto, seria aquela que alcançaria a essência dos fenômenos, revelando-os como inter-relacionados com outros fenômenos com os quais e a partir dos quais constituem totalidades dinâmicas.

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O que é metodologia científica

Resenha elaborada por: Rita C. Freire

CARVALHO, Alex et al. Aprendendo Metodologia Científica. São Paulo: O Nome da Rosa, 2000, pp. 11-69.

Considerações para os primeiros fundamentos estabelecidos
para o conhecimento científico

A ciência moderna vai se constituindo ao longo da modernidade e, de certa forma, até hoje, como um campo seguro, provedor de certezas e de formas específicas de se estabelecer no mundo, provendo sentidos para a existência. Sua natureza é essencialmente histórica, tendo na volorização do eu autônomo e na liberdade individual um correlato da valorização burguesa do indivíduo, invenção da modernidade e do modo de produção capitalista.
A observação e a experimentação, como procedimentos de pesquisa, não são desprovidas desses recortes que, se, de um lado, revolucionam a forma de produzir conhecimento, de outro trazem as marcas de um novo tempo que vai tentar fazer da ciência sua aliada na construção de uma nova e supostamente definitiva ordem social.
As ciências humanas surgem no contexto de briga entre o que se pretende como objetividade, nos moldas das ciências chamadas exatas, e o que se denomina conhecimento histórico, o qual, de várias maneiras vai se configurando como objeto próprio de seu estudo

O ILUMINISMO E A QUESTÃO DO CONHECIMENTO

O século XVIII apresenta-se como o século da claridade, da iluminação, que se coloca no plano da experiência humana, aprofundando a crença na razão humana como possibilitadora do conhecimento e de todas as formas de relação humana na terra. Razão equivale à luz.
A razão deve se posicionar como critério a partir do qual o homem deve construir seu destino: o eu se afirma como ponto de partida racional da batalha contra as trevas (ignorância), se posicionando como evidência autofundante de certezas e garantindo, assim, a produção do conhecimento.
O Iluminismo vai além dos racionalismos e empirismos do século XVII no sentido de prescindir cada vez mais de uma mediação divina e, assim, apontar não só as possibilidades da razão como seus limites.
O empirismo radical de D. Hume e suas conseqüências no campo da
Fundamentação do conhecimento científico

Para Hume, o fundamento do conhecimento não se encontra em alguma mediação divina, mas no próprio homem. Defende o critério da experiência sensível como condição de garantia de, pelo menos, alguma correção do conhecimento produzido pela ciência.
Para ele, nada se pode afirmar da realidade em si mesma, em termos de permanência absoluta de um fenômeno. O ceticismo de Hume busca fundamentar o conhecimento produzido pela ciência no campo das condições psicológicas do sujeito humano. É na idéia de hábito ou costume que busca explicar o modo de funcionamento da noção de causalidade, central na ciência humana. O seu trabalho é, pois, fundamentar, no campo psicológico, os mecanismos pelos quais: (1) chega-se à noção de causa e (2) espera-se que, no futuro, o passado se repita. O hábito e a crença aparecem como tais mecanismos.
Tudo o que se pode fazer é assumir o caráter bastante humano deste tipo de conhecimento, esperando ou contando com a repetição de eventos no futuro, com um grau um pouco maior de certeza dado pelos cálculos – cujos resultados podem se modificar – de probabilidades.

As possibilidades e os limites da razão. I.Kant

Kant pretende superar a dicotomia racionalismo-empirismo, ou seja, vai buscar resolver o processo de produção de conhecimento, considerando a ciência de sua época. A questão do conhecimento é a razão humana, liberta de tudo o que é exterior a si mesma. Kant considera que a ciência produz um conhecimento universal e correto. Sendo universal, ultrapassa o plano da pura experiência sensível e contingente. É a razão humana, nas suas possibilidades e limites, que garante a produção de verdade universais pela ciência.
Para Kant, nossa razão filtra a realidade no sentido de que só temos acesso ao que ela permite. O tempo e o espaço, assim como a substância e causalidade, são categorias a priori a partir das quais situamos nossa própria experiência. As primeiras são categorias da sensibilidade humana; as demais do entendimento. Ambas constituem as formas a priori do conhecimento, ou seja, as fôrmas (ou os filtros) que possuímos na razão e que possibilitam, mas também limitam (nosso conhecimento se atém aos fenômenos) a ciência.
A organização das impressões captadas pelos sentidos é dada pelas categorias a priori, o que garante a universalidade do conhecimento produzido. Por ser universal, tal estrutura é tida por Kant como transcendental, isto é, independente da experiência particular de cada ser humano, sendo própria de todos os homens. Transcendental, para Kant, é aquilo que demarca a experiência racional humana.
A questão do conhecimento, se apresenta como uma formulação radicalmente moderna, no sentido histórico, uma vez que atrelada à idéia de racionalidade como luz, como fundamento do conhecer. A idéia comanda a produção de conhecimento, filtra as informações dadas pelos sentidos e, assim, tem primazia sobre a própria impressão.

A razão é histórica: G.H. Hegel

A Revolução Francesa, com seus ideais de igualdade, liberdade e fraternidade, com sua ênfase na razão humana e no desprezo pela ignorância, constituiu, para Hegel, o contexto histórico a partir do qual sua filosofia foi sendo elaborada. Par Hegel, todo esse movimento se deu no espaço da luta, da guerra, da contradição, do embate entre opostos. Hegel apresenta uma filosofia da história, buscando compreender racionalmente o movimento dos acontecimentos humanos.
O contraditório também se aplica aos fenômenos da natureza e busca estabelecer uma relação entre a estrutura da razão e o modo de funcionamento da natureza. A razão humana se desdobra sobre si mesma para se tomar com puro movimento, como articulação de uma imanência: o mundo humano ou não, é, em si mesmo, movimento e movimento a partir da contradição.
Não é possível pensar um artista sem sua obra, sem um suporte material no qual ele se realize como tal. Do mesmo modo, o pedaço de madeira, por exemplo, tal qual está sendo no primeiro momento, impõe resistência ao artista. Não se pode fazer qualquer coisa com a madeira, e, mais importante, ela impõe uma luta pela qual resiste e se entrega, morre e renasce, e vem a ser outra coisa a partir de sua interpenetração com o seu contrário, isto é, o artista. Tensão, luta de contrários: não é necessário se submeter à matéria para dominá-la?
A história humana, pode e deve ser analisada do ponto de vista do conflito entre idéias que foram sendo forjadas e transformadas em vista das contradições postas por elas mesmas. Na medida em que concebe o movimento da história e da natureza com o movimento da idéia, Hegel se apresenta como idealista.

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O QUE É METODOLOGIA CIENTÍFICA?

Resenha elaborada por: Rita C. Freire

CARVALHO, Alex et al. Aprendendo Metodologia Científica. São Paulo: O Nome da Rosa, 2000, pp. 11-69.

UM ROTEIRO DE VIAGEM…

A ciência moderna centra a discussão em dois aspectos do conhecimento. O primeiro é a do papel do sujeito na produção do conhecimento. O segundo diz respeito à forma como a natureza e/ou a sociedade é pressuposta pelas diversas tendências.
Como acreditamos no caráter histórico da ciência, decidimos percorrer as principais tendências metodológicas, apontando algumas possibilidades e impasses que fazem ainda hoje parte do conhecimento científico. Entender e discutir as diferentes bases da ciência é condição para compreender suas reais possibilidades e limites.

O SURGIMENTO HISTÓRICO DA MODERNIDADE E A CONSTITUIÇÃO DOS PRIMEIROS FUNDAMENTOS PARA O CONHECIMENTO CIENTÍFICO

O Renascimento, antes do século XVII, já propunha a valorização da capacidade humana de conhecer e transformar a realidade. O homem se coloca como capaz de, por si só, descobrir o modo de funcionamento da natureza, submetendo-se à ela como primeiro passo no projeto moderno de produção do conhecimento.
O segundo passo, refere-se ao domínio e controle da natureza em benefício do próprio homem. O homem se coloca como dono do mundo e recoloca a busca da verdade no plano do fundamento seguro, dado pelo capacidade humana de conhecer-se a si mesma, de forma autônoma.
A constituição da ciência moderna, que ocorre no âmbito da aventura das descobertas marítimas, reflete e atiça a curiosidade pelos fatos. Navegar é preciso. É preciso navegar, mas com método, com ordem e medida, sabendo quais passos dar para atingir um determinado fim. Não se deve deixar levar por nenhuma influência de cunho pessoal, passional ou cultural.
O problema central da ciência moderna é a questão do método. Sem ordem não há conhecimento possível. O problema dos modernos vai ser o de do ponto de vista epistemológico, fornecer as bases seguras do conhecimento, desprovendo-o de erros, erros estes advindos da falta de método, da ordem e medida necessários ao correto proceder da razão.
A luta é, pois, contra o erro, (…) contra a imaginação que destrói a diferença entre o real e o onírico, contra a linguagem que carrega de preconceitos o real, e, portanto, não é capaz de descrever a realidade tal como ela é.
Mais: chegar à verdade significa captar uma ordem eterna e imutável que subjaz aos fenômenos. Tal ordem implica a existência de relações necessárias entre determinados eventos da natureza. A busca dos fundamentos seguros do conhecimento está comprometida com a suposição de que existe uma unidade ou permanência na natureza, com a valorização da repetição dos fenômenos. Isto decorre de que um dos principais objetivos da ciência moderna é justamente o da previsão da ocorrência futura dos fenômenos, previsão esta subjacente à elaboração das leis científicas.
De todo modo, a questão que vai permear a análise do processo de constituição do conhecimento científico é: será possível um conhecimento tão destituído de humanidade?

O racionalismo de Descartes

De maneira geral, no século XVII duas respostas à questão dos fundamentos do conhecimento científico são elaboradas: o racionalismo e o empirismo. Descartes parte do princípio de que ter conhecimento é ter idéias e de que as idéias são diferentes das coisas tomadas em si mesmas. Ele faz o seguinte raciocínio: devo duvidar de tudo, posto que a linguagem, a imaginação, meus órgãos dos sentidos e assim por diante me iludem. Mas, ao recorrer à dúvida como método (duvido de tudo sistematicamente), chego, de forma dedutiva, a uma certeza: não posso duvidar do fato de que estou pensando. Penso, logo existo. Fecha-se, assim, o circuito da dúvida metódica: existe uma correspondência entre a matéria e a idéia.
Para Descartes, também de forma dedutiva, Deus é a medida da garantia do conhecimento, da capacidade de pensar clara e distintamente. Deus nos capacita a ter idéias corretas, que são, inclusive, inatas, desprovidas de erros, desde que metodicamente produzidas, isto é, elaboradas segundo critérios claros e distintos.
Assim, o conhecimento é obra da razão, é ela que garante a correção das descobertas e a relação real entre idéias e extensão (matéria). Nessa perspectiva, o sujeito produtor de conhecimento se apresenta como um eu que valoriza a si mesmo, por dedução. Nesse processo, esse eu se requer purificado das influências históricas, pessoais, culturais, enfim, humanas, de forma a alcançar a verdade imutável das coisas. O processo da dúvida metódica, em Descartes, resultou numa garantia para a produção de verdades no campo da ciência. Esta garantia é de natureza metafísica, uma vez que a certeza do conhecimento verdadeiro passa pelo pressuposto da ação divina no intelecto humano.

O empirismo

Já o empirismo, formulado inicialmente por Bacon, parte do pressuposto de que “conhecer” também é tomado como “ter idéias”, mas a via privilegiada da sua produção não é a razão: trata-se da experiência sensorial, isto é, a de que se tem como os órgãos dos sentidos. É pela indução, isto é, pela observação dos muitos eventos se repetindo da mesma maneira, que se pode, finalmente, elaborar leis que descrevem o funcionamento da natureza.
Os empiristas fundamentam cada vez mais nas condições psicológicas do sujeito produtor de conhecimento a possibilidade de elaboração de leis gerais. Ora, se as facetas pessoais, culturais, ou mesmo biológicas do indivíduo estão no cerne do processo de produção do conhecimento, como alcançar a verdade das coisas, objetivo maior da ciência para os racionalistas? Por este motivo, boa parte dos empiristas separa sujeito e objeto.

A física newtoniana

A figura de I. Newton, surgida entre os séculos XVII e XVIII, vai permitir que o projeto de ciência moderna se estabeleça definitivamente. Ele combinou de maneira apropriada as duas tendências até então antagônicas: empirismo e racionalismo. Afirmava que tanto os experimentos sem interpretação sistemática (empirismo) como a dedução sem a evidência experimental (racionalismo) não levam a uma teoria confiável. Tudo que não é deduzido dos fenômenos constitui mera hipótese, e esta não tinha lugar porque as proposições particulares são inferidas dos fenômenos e depois tornadas gerais por indução.
Para Newton era suficiente explicar os fenômenos, sem necessariamente chegar às suas causas. A natureza era, assim, entendida como uma máquina que funciona perfeitamente, não tendo ele dificuldades em aceitar e postular a existência de um Deus que cria um mundo de acordo com a mecânica que os cientistas vão desvendando.

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O QUE É METODOLOGIA CIENTÍFICA?

Resenha elaborada por: Rita C. Freire

CARVALHO, Alex et al. Aprendendo Metodologia Científica. São Paulo: O Nome da Rosa, 2000, pp. 11-69.

A aventura histórica da construção
dos fundamentos do conhecimento científico

A palavra ciência surge do latim (scire) e significa conhecimento ou sabedoria. Em geral, fala-se que uma pessoa tem um certo conhecimento (ou está ciente) quando detém alguma informação ou saber com relação a algum aspecto da realidade.
O conhecimento, assim entendido, pode ser do tipo senso comum, artístico, filosófico, teológico ou científico.
O conhecimento do tipo senso comum, por exemplo, produz informações sobre a realidade e normalmente aos seus objetivos mais imediatos. Já o conhecimento chamado de científico não é imediatista, não se contenta com informações superficiais sobre um aspecto da realidade. A ciência pretende ser crítica, isto é, busca estar sempre julgando a correção de suas próprias produções.
O conhecimento científico se caracteriza também pela busca em compreender ou explicar a realidade apresentando os fatores que determinam a existência de um evento. Uma vez obtido este conhecimento, deve-se garantir sua generalidade, isto é, sua validade em outras situações. A divulgação dos resultados também é uma marca fundamental da ciência moderna. Trata-se do que se chama de exercício de intersubjetividade, isto é, da garantia de que o conhecimento está sendo colocado em discussão e que qualquer outro cientista pode ter acesso a ele. Neste sentido, a ciência moderna não se pretende dogmática. Ao relatar seus resultados, o cientista deve também contar como chegou a eles, qual caminho seguiu para alcançá-los. Trata-se, pois, da apresentação do que se chama de método científico.
Quando se fala em método, busca-se explicitar quais são os motivos pelos quais o pesquisador escolheu determinados caminhos e não outros. A questão do método é teórica, uma vez que se refere aos pressupostos que fundamentam o modo de pesquisar e são anteriores à coleta de informações na realidade.
Pressupostos diferentes determinam procedimentos diferentes para alcançar o conhecimento. São suposições prévias (antes da pesquisa acontecer) basicamente sobre:
1. o que é o homem, suas possibilidades de vir a conhecer a realidade e, se existem, quais são elas e como poderão se dar;
2. as maneiras pelas quais a natureza e a sociedade são concebidas e;
3. o processo de produção de conhecimento, isto é, considerando determinada concepção de homem e de natureza e/ou sociedade, resta supor como se originam as idéias ou o saber da ciência, como deverá ser possível produzi-lo.

Apesar de a ciência possuir critérios que, de uma maneira geral, são aceitos por todos os cientistas como definidores de sua maneira de trabalhar (como a intersubjetividade, por exemplo), nem todos os cientistas partem, para a realização do seu trabalho, de uma mesma concepção do que seja o conhecimento científico. Isto ocorre porque os pressupostos a respeito do que seja o homem, a natureza e/ou a sociedade e o próprio modo de produzir conhecimento não precisam ser os mesmos para todos os cientistas.
Convém então se falar em visões de ciência ou em tendências metodológicas.

O CONHECIMENTO É UMA RELAÇÃO

A epistemologia é o ramo da filosofia que vem discutindo e formulando diferentes fundamentos para a ciência. Ela utiliza os termos sujeito e objeto para fazer referência aos dois pólos envolvidos na produção do conhecimento: o homem (que se propõe a conhecer algo) e o aspecto da realidade a ser conhecido. A discussão do papel do sujeito se refere à forma como o cientista (o sujeito) deve se comportar para produzir conhecimento, revelando assim pressupostos subjacentes a toda pesquisa.
Surgiram então três perspectivas a este respeito. A primeira – chamada de empirismo – supõe a primazia do objeto em relação ao sujeito. A segunda – chamada de racionalismo – aponta a primazia do sujeito ou de sua atividade em relação ao objeto. Pode-se afirmar que o empirismo e o racionalismo possuem um elemento em comum: ambos pressupõem uma separação entre sujeito e objeto. Claro que o sujeito (o pesquisador), nos dois casos, participa do processo de produção de conhecimento. No entanto, tal participação é feita supondo-se que o objeto ou realidade que se quer estudar existe por si só, fora e separada do pesquisador.
A terceira posição sobre o papel do pesquisador na produção do conhecimento – o interacionismo – afirma que o conhecimento é produzido no quadro da interação entre sujeito e objeto. Nesta perspectiva, os produtos da ciência seriam os resultados das inter-relações que mantemos com a realidade e não estariam destituídos de pressupostos dados sobretudo pela cultura ou ideologia predominante num determinado período histórico. As verdades da ciência seriam, pois, fundamentalmente históricas e, portanto, nunca neutras. A idéia de neutralidade científica, não se enquadra na perspectiva interacionista, uma vez que pressupõe um cientista purificado das condições que determinam a sua própria existência como homem e pesquisador.

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A importância da metodologia

A IMPORTANCIA DA METODOLOGIA : um exemplo histórico

“A arte de descobrir a verdade é mais preciosa que a maioria das verdades que se descobrem” (Fontenelle)

Apesar de exaustiva literatura a respeito da metodologia científica, verifica-se lacunar a comparação e sua influência perante o conhecimento e o cotidiano dos leigos. O que difere, de fato, o conhecimento popular da ciência? O que torna o conhecimento técnico diferenciado dos dizeres dos mais antigos?
O conhecimento empírico tratado como conhecimento vulgar e do senso comum utiliza-se da “estratégia” ensaios e tentativas, sem levantamento de erros e propostas de atuação. Baseia-se na experiência do indivíduo, recorrendo pouco aos cânones científicos. É, portanto, assistemático e ametódico.
Já o conhecimento cientifico busca além de reconhecer os fenômenos, também conhecer suas causas e suas leis. É por definição, objetivo, pertinente ao interesse intelectual e o espírito crítico. Como similaridade com o conhecimento empírico, pode-se sugerir a proximidade de seus objetos e até mesmo o imediatismo, perceptíveis pelos sentidos ou, no caso da ciência, por instrumentos, “(…) sendo de ordem material ou física, são suscetíveis de experimentação”. (Cervo,A. L.; Bervian, P. A, 2002, p.10).
Reconhecendo a notória relevância tanto o conhecimento empírico como o conhecimento cientifico, esta resenha pretende modestamente, suscitar trechos de salutares referências bibliográficas e retomar essa discussão primordial para melhor apreensão dos fundamentos de metodologia, e demonstrar, tomando a antropologia e a historia como ciências dotadas também de metodologias próprias, um dos grandes saltos evolutivos do homem, a ocupação da América e a importância do desenvolvimento e da cristalização das técnicas e do método[1].

Definição

Para Asti Vera (1973), metodologia é “(…) estudo analítico e crítico dos métodos de investigação e de prova (…) [atua] como descrição, análise e avaliação crítica dos métodos de investigação” (p.8).
É a redução das tentativas de ensaio e erro, apresentadas pelo conhecimento popular, traçando os caminhos percorridos pelo pesquisador–cientista. Analisa seus procedimentos, que são instrumentos para alcançar os fins da investigação. É mais generalista que a técnica, que é a definição dos meios auxiliares para a conclusão da pesquisa[2].
Para Einstein, “(…) a compreensão, se alcança, quando reduzimos os fenômenos, por um processo lógico, a algo já conhecido (ou na aparência) evidente”. (Asti Vera, 1973, p.9). Deste modo, complementando Asti Vera, Einstein demonstra que o uso da metodologia é o ponto alto da lucidez do cientista, que busca otimização dos recursos, redução de tempo, e melhor aproveitamento dos materiais, usando a lógica de experiências anteriores, colocando em cheque dados ulteriores e usando a crítica na avaliação dos resultados.
Como a definição e escolha do método dependem principalmente do objeto a ser pesquisado, as investigações coroadas com êxito são aquelas que observam os avanços e retrocessos dos processos.
Para Cervo e Bervian (Cervo,A. L; Bervian, P. A, 2002), “o método é fator de segurança e economia na ciência”. (p.23). Corroboram a importância da adoção de metodologia adequada indicando que “(…) a ciência é uma das poucas realidades que podem ser legadas a gerações seguintes” (p.5). O uso de métodos e da ciência no cotidiano humano será melhor explicitado com o autor escolhido para o debate, Darcy Ribeiro.

Importância & exemplo

“(…) [a ciência pretende aproximar-se] cada vez mais da verdade através de métodos que proporcionem controle, sistematização, revisão e segurança maior do que outras formas de saber não-científicas”. (Cervo, A. L.; Bervian, P. A., 2002, p. 10).

Sugere-se, dessa forma, que a metodologia auxilia a atualização histórica dos povos no desenvolvimento de tecnologias: as transposições da agricultura rudimentar para as modernas técnicas de cultivo, podem ser entendidas como um dos exemplos primordiais no entendimento da metodologia como fator preponderante evolutivo humano[3].
Em 1972, surge um livro referência na ciência brasileira: o processo civilizatório, de Darcy Ribeiro, pesquisador mineiro, formado em São Paulo e estudioso dos indígenas, principalmente do centro do Brasil. A guisa de elucidar o processo de evolução americano, Darcy vai estudar desde a formação das primeiras civilizações humanas, tentando desta forma destrinchar as motivações para a disparidades entre as nações modernas e as desigualdades, principalmente dos povos ditos atrasados.

“Como classificar, uns em relação aos outros, os povos indígenas que variavam desde altas civilizações até hordas pré-agrícolas e que reagiram à conquista segundo o grau de desenvolvimento que haviam alcançado? Como situar em relação àqueles povos e aos europeus, os africanos desgarrados de grupos em distintos graus de desenvolvimento para serem transladados à América como mão-de-obra escrava? Como classificar os europeus que regeram a conquista? Os ibérios que chegaram primeiro e os nórdicos que vieram depois – sucedendo-os no domínio de extensas áreas – configuravam o mesmo tipo de formação sociocultural? Finalmente, como classificar e relacionar as sociedades nacionais americanas por seu grau de incorporação aos moldes de vida da civilização agrária-mercantil e, já agora, da civilização industrial? (Ribeiro, D., 1972, p.02).

Chega a conclusão de que a forma das alterações produtivas, como o uso do regadio por civilizações orientais, e as transposições de cultivo para evitar o desgaste da terra na Europa pós-medieval trouxeram avanços técnicos a essas populações, que não foram implantados nas populações dominadas, como a americana: o método não foi trazido, por conseqüências imediatas tem-se a exploração imediatista e o desgaste do ambiente como fatores determinantes nessas nações.
Ao questionar-se sobre a passagem do agrário-mercantil para o fabril, Ribeiro demonstra o choque da precocidade da mudança[4]; no decorrer do livro, com diversos excertos sobre as técnicas agricultáveis coloca como a mudança do uso exclusivo da sabedoria popular no cultivo com técnicas milenares, mas nem sempre ideais, para o uso de novas técnicas, e por conseqüência, novos métodos auxiliaram na evolução e sucesso dos processos sociais, no caso americano.

Conclusões

Poder-se-ia aqui traçar exemplo em diversas áreas da importância da metodologia nos seus processos, para maior eficácia, eficiência e sobretudo, qualidade de resultados.
Escolheu-se para tal elucidação, a própria historia do homem, em uma de suas parcelas mais significativas, a descoberta da América, e o choque das civilizações envolvidas. A metodologia aqui explicada foi não só a científica, a que auxilia na redação da tese, no desenvolvimento de pesquisas, no que traz a bancada do pesquisador soluções e caminhos, mas também aquela que atua no campo prático, também imbuída de interesse cientificista e desejo de conhecimento.
Mostrou-se, através da bibliografia especifica, que a metodologia não induz o resultados da pesquisa, mas potencializa a agilidade do pesquisador, que através da redução de tempo e gasto com material. Concorda-se com a citação de Einstein que coloca como “processos lógicos” trazem a rápido alcance a compreensão.
A sociedade americana, que também conheceu as mazelas da expropriação, do abusivo colonizador e das espúrias tentativas e conquistas européias sob seu território, também conheceu novas técnicas de cultivo, que visavam sucesso econômico e sublevações competitivas entre as nações. A própria Europa, que historicamente sofreu pandemias de fome e doenças, aprendeu através do desenvolvimento e aplicação de métodos agricultáveis, o quanto lucrativo e menos exaustivo poderia ser a exploração da terra nativa.
O uso de exemplo prático (fático) para suscitar importância da metodologia científica justifica-se dado que não somente em pequenos âmbitos a observância dos métodos alcança vultuosos resultados. O conhecimento empírico trouxe o homem a agricultar rudimentarmente a terra, sobreviver dela; a utilização de métodos e técnicas científicamente desenvolvidas concedeu-lhe a oportunidade de desenvolver a economia, não só sobrevivendo, mas se sustentando como homem produtor num mundo recém-capitalista.
Bibliografia

ASTI VERA, Armando. Metodologia da pesquisa científica. Porto Alegre : Globo, 1973.

CARVALHO, Alex [et al.]. Aprendendo metodologia científica. São Paulo : O Nome da Rosa, 2000. p.11-69.

CERVO, Amado Luiz; BERVIAN, Pedro Alcino. Metodologia científica. 5. ed. São Paulo : Prentice Hall, 2002.

ECO, Umberto. Como se faz uma tese. 11. ed. São Paulo: Perspectiva, 1994. (Coleção estudos).

RIBEIRO, Darcy. O processo civilizatório: Etapas da evolução sócio-cultural. 10. ed. Petrópolis : Vozes, 1987.

SALOMON, Décio Vieira. Maravilhosa incerteza: pensar, pesquisar e criar. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
[1] Como estudo de caso, preferiu-se não somente se ater a exemplos da literatura científica, e sim trazer exemplo prático de metodologias influenciando diretamente o homem, como neste modelo escolhido, a visão antropológica de Darcy Ribeiro sobre a invasão da América.
[2] O método é o conjunto de das diversas etapas, que são as técnicas. Nota do autor.
[3] Cita-se aqui Darcy Ribeiro, antropólogo brasileiro, em seu livro clássico “Processo civilizatório”, que insere o leitor na noção de atualização histórica das primeiras civilizações até as grandes alterações políticas do século XX. Choca a proposição antagônica oriente-ocidente nas formas de cultivo da terra, do desenvolvimento de tecnologias, e suas implicações na historia da humanidade. Nota do autor.
[4] Neste trecho Darcy justifica o porque do livro e da pesquisa; as sociedades americanas e seus meandros durante a exploração européia e as mudanças bruscas as quais passou desde a invasão, a principio dos ibérios, trazendo métodos diferenciados de cultivo, que alteraram de forma drástica a sociedade aqui existente. Não pertinente a essa resenha, mas sim ao estudo dessas sociedades, deve-se observar que neste caso, a economia, a micro estrutura para Karl Marx, alterou toda a organização social. Nota do autor.

Enviado por Maria Lúcia Fuzaite

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A importância da Metodologia: um exemplo histórico

“A arte de descobrir a verdade é mais preciosa que a maioria das verdades que se descobrem” (Fontenelle)
Apesar de exaustiva literatura a respeito da metodologia científica, verifica-se lacunar a comparação e sua influência perante o conhecimento e o cotidiano dos leigos. O que difere, de fato, o conhecimento popular da ciência? O que torna o conhecimento técnico diferenciado dos dizeres dos mais antigos? O conhecimento empírico tratado como conhecimento vulgar e do senso comum utiliza-se da “estratégia” ensaios e tentativas, sem levantamento de erros e propostas de atuação. Baseia-se na experiência do indivíduo, recorrendo pouco aos cânones científicos. É, portanto, assistemático e ametódico. Já o conhecimento cientifico busca além de reconhecer os fenômenos, também conhecer suas causas e suas leis. É por definição, objetivo, pertinente ao interesse intelectual e o espírito crítico. Como similaridade com o conhecimento empírico, pode-se sugerir a proximidade de seus objetos e até mesmo o imediatismo, perceptíveis pelos sentidos ou, no caso da ciência, por instrumentos, “(…) sendo de ordem material ou física, são suscetíveis de experimentação”. (Cervo,A. L.; Bervian, P. A, 2002, p.10). Reconhecendo a notória relevância tanto o conhecimento empírico como o conhecimento cientifico, esta resenha pretende modestamente, suscitar trechos de salutares referências bibliográficas e retomar essa discussão primordial para melhor apreensão dos fundamentos de metodologia, e demonstrar, tomando a antropologia e a historia como ciências dotadas também de metodologias próprias, um dos grandes saltos evolutivos do homem, a ocupação da América e a importância do desenvolvimento e da cristalização das técnicas e do método[1]. Definição Para Asti Vera (1973), metodologia é “(…) estudo analítico e crítico dos métodos de investigação e de prova (…) [atua] como descrição, análise e avaliação crítica dos métodos de investigação” (p.8). É a redução das tentativas de ensaio e erro, apresentadas pelo conhecimento popular, traçando os caminhos percorridos pelo pesquisador–cientista. Analisa seus procedimentos, que são instrumentos para alcançar os fins da investigação. É mais generalista que a técnica, que é a definição dos meios auxiliares para a conclusão da pesquisa[2]. Para Einstein, “(…) a compreensão, se alcança, quando reduzimos os fenômenos, por um processo lógico, a algo já conhecido (ou na aparência) evidente”. (Asti Vera, 1973, p.9). Deste modo, complementando Asti Vera, Einstein demonstra que o uso da metodologia é o ponto alto da lucidez do cientista, que busca otimização dos recursos, redução de tempo, e melhor aproveitamento dos materiais, usando a lógica de experiências anteriores, colocando em cheque dados ulteriores e usando a crítica na avaliação dos resultados. Como a definição e escolha do método dependem principalmente do objeto a ser pesquisado, as investigações coroadas com êxito são aquelas que observam os avanços e retrocessos dos processos. Para Cervo e Bervian (Cervo,A. L; Bervian, P. A, 2002), “o método é fator de segurança e economia na ciência”. (p.23). Corroboram a importância da adoção de metodologia adequada indicando que “(…) a ciência é uma das poucas realidades que podem ser legadas a gerações seguintes” (p.5). O uso de métodos e da ciência no cotidiano humano será melhor explicitado com o autor escolhido para o debate, Darcy Ribeiro. Importância & exemplo “(…) [a ciência pretende aproximar-se] cada vez mais da verdade através de métodos que proporcionem controle, sistematização, revisão e segurança maior do que outras formas de saber não-científicas”. (Cervo, A. L.; Bervian, P. A., 2002, p. 10). Sugere-se, dessa forma, que a metodologia auxilia a atualização histórica dos povos no desenvolvimento de tecnologias: as transposições da agricultura rudimentar para as modernas técnicas de cultivo, podem ser entendidas como um dos exemplos primordiais no entendimento da metodologia como fator preponderante evolutivo humano[3]. Em 1972, surge um livro referência na ciência brasileira: o processo civilizatório, de Darcy Ribeiro, pesquisador mineiro, formado em São Paulo e estudioso dos indígenas, principalmente do centro do Brasil. A guisa de elucidar o processo de evolução americano, Darcy vai estudar desde a formação das primeiras civilizações humanas, tentando desta forma destrinchar as motivações para a disparidades entre as nações modernas e as desigualdades, principalmente dos povos ditos atrasados. “Como classificar, uns em relação aos outros, os povos indígenas que variavam desde altas civilizações até hordas pré-agrícolas e que reagiram à conquista segundo o grau de desenvolvimento que haviam alcançado? Como situar em relação àqueles povos e aos europeus, os africanos desgarrados de grupos em distintos graus de desenvolvimento para serem transladados à América como mão-de-obra escrava? Como classificar os europeus que regeram a conquista? Os ibérios que chegaram primeiro e os nórdicos que vieram depois – sucedendo-os no domínio de extensas áreas – configuravam o mesmo tipo de formação sociocultural? Finalmente, como classificar e relacionar as sociedades nacionais americanas por seu grau de incorporação aos moldes de vida da civilização agrária-mercantil e, já agora, da civilização industrial? (Ribeiro, D., 1972, p.02). Chega a conclusão de que a forma das alterações produtivas, como o uso do regadio por civilizações orientais, e as transposições de cultivo para evitar o desgaste da terra na Europa pós-medieval trouxeram avanços técnicos a essas populações, que não foram implantados nas populações dominadas, como a americana: o método não foi trazido, por conseqüências imediatas tem-se a exploração imediatista e o desgaste do ambiente como fatores determinantes nessas nações. Ao questionar-se sobre a passagem do agrário-mercantil para o fabril, Ribeiro demonstra o choque da precocidade da mudança[4]; no decorrer do livro, com diversos excertos sobre as técnicas agricultáveis coloca como a mudança do uso exclusivo da sabedoria popular no cultivo com técnicas milenares, mas nem sempre ideais, para o uso de novas técnicas, e por conseqüência, novos métodos auxiliaram na evolução e sucesso dos processos sociais, no caso americano. Conclusões Poder-se-ia aqui traçar exemplo em diversas áreas da importância da metodologia nos seus processos, para maior eficácia, eficiência e sobretudo, qualidade de resultados. Escolheu-se para tal elucidação, a própria historia do homem, em uma de suas parcelas mais significativas, a descoberta da América, e o choque das civilizações envolvidas. A metodologia aqui explicada foi não só a científica, a que auxilia na redação da tese, no desenvolvimento de pesquisas, no que traz a bancada do pesquisador soluções e caminhos, mas também aquela que atua no campo prático, também imbuída de interesse cientificista e desejo de conhecimento. Mostrou-se, através da bibliografia especifica, que a metodologia não induz o resultados da pesquisa, mas potencializa a agilidade do pesquisador, que através da redução de tempo e gasto com material. Concorda-se com a citação de Einstein que coloca como “processos lógicos” trazem a rápido alcance a compreensão. A sociedade americana, que também conheceu as mazelas da expropriação, do abusivo colonizador e das espúrias tentativas e conquistas européias sob seu território, também conheceu novas técnicas de cultivo, que visavam sucesso econômico e sublevações competitivas entre as nações. A própria Europa, que historicamente sofreu pandemias de fome e doenças, aprendeu através do desenvolvimento e aplicação de métodos agricultáveis, o quanto lucrativo e menos exaustivo poderia ser a exploração da terra nativa. O uso de exemplo prático (fático) para suscitar importância da metodologia científica justifica-se dado que não somente em pequenos âmbitos a observância dos métodos alcança vultuosos resultados. O conhecimento empírico trouxe o homem a agricultar rudimentarmente a terra, sobreviver dela; a utilização de métodos e técnicas científicamente desenvolvidas concedeu-lhe a oportunidade de desenvolver a economia, não só sobrevivendo, mas se sustentando como homem produtor num mundo recém-capitalista. Bibliografia ASTI VERA, Armando. Metodologia da pesquisa científica. Porto Alegre : Globo, 1973. CARVALHO, Alex [et al.]. Aprendendo metodologia científica. São Paulo : O Nome da Rosa, 2000. p.11-69. CERVO, Amado Luiz; BERVIAN, Pedro Alcino. Metodologia científica. 5. ed. São Paulo : Prentice Hall, 2002. ECO, Umberto. Como se faz uma tese. 11. ed. São Paulo: Perspectiva, 1994. (Coleção estudos). RIBEIRO, Darcy. O processo civilizatório: Etapas da evolução sócio-cultural. 10. ed. Petrópolis : Vozes, 1987. SALOMON, Décio Vieira. Maravilhosa incerteza: pensar, pesquisar e criar. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006. [1] Como estudo de caso, preferiu-se não somente se ater a exemplos da literatura científica, e sim trazer exemplo prático de metodologias influenciando diretamente o homem, como neste modelo escolhido, a visão antropológica de Darcy Ribeiro sobre a invasão da América. [2] O método é o conjunto de das diversas etapas, que são as técnicas. Nota do autor. [3] Cita-se aqui Darcy Ribeiro, antropólogo brasileiro, em seu livro clássico “Processo civilizatório”, que insere o leitor na noção de atualização histórica das primeiras civilizações até as grandes alterações políticas do século XX. Choca a proposição antagônica oriente-ocidente nas formas de cultivo da terra, do desenvolvimento de tecnologias, e suas implicações na historia da humanidade. Nota do autor. [4] Neste trecho Darcy justifica o porque do livro e da pesquisa; as sociedades americanas e seus meandros durante a exploração européia e as mudanças bruscas as quais passou desde a invasão, a principio dos ibérios, trazendo métodos diferenciados de cultivo, que alteraram de forma drástica a sociedade aqui existente. Não pertinente a essa resenha, mas sim ao estudo dessas sociedades, deve-se observar que neste caso, a economia, a micro estrutura para Karl Marx, alterou toda a organização social.
Nota do autor. Resenha: Maria Lúcia Fuzaite

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